2014/03/21

A Vida É…


Cenário: uma paragem de autocarro em nenhures.

Personagens: Mulher1, de idade, ligeiramente, avançada, cabelo despenteado, saco de plástico com conteúdo indefinido no interior, olhar descorado pelos anos e semblante fechado.
Homem, de idade avançada, cabelo escasso, olhar e roupas descoloradas pelo tempo.
Mulher2, relativamente jovem, de olhar afável, cabelo irrepreensivelmente penteado, calças de ganga e t-shirt impecáveis.

A Mulher2 chega à paragem de autocarro e senta-se entre os outros dois personagens que já se encontram sentados, cada um numa ponta daquela espécie de banco.

Mulher1 – A vida é uma merda! – Olhar perdido, ombros descaídos! Toda a sua postura revela que já nada lhe importa, parece aguardar algo ou alguém que não virá!

Homem – A vida não é uma merda é mais que isso é uma desilusão! – A mesma postura o mesmo descrédito de tudo e de todos!

De repente viram-se os dois na direcção da Mulher2.
Os seus olhares inquirem-na, as suas posturas revelam agora que aguardam a “sentença” dela!

Será que ela dirá que a vida não é nada disso, que é um realizar de sonhos, a concretização de tudo que a faz feliz. Que a vida é um palco onde impera o amor, o carinho, a amizade, a alegria, os sorrisos e todas aquelas coisas que a fazem sentir que vale a pena estar nesse palco, naquela peça, naquela cena?
Ou será que ela dirá que mais do que merda ou desilusão a vida é um nada, um vazio. Que é sim um palco onde as personagens, ela inclusive, são manipuladas, quais marionetas, ao sabor e bel-prazer do seu manipulador. Que as personagens se deixam levar, sem vontade, apáticas, pois nada há a fazer?

A Mulher2 sente aqueles olhares “cravados” em si, levanta-se, dá dois passos em frente, vira-se na direcção dos dois outros personagens que se inclinam na sua direcção aguardando a "sentença", esboça um sorriso e diz:

– O autocarro chegou!