2011/02/28

Ele Segredou-Me que há Dias em que...


A vontade de subir àquela montanha, percorrer todas as curvas da sua sinuosa estrada até ao ponto mais alto, lá chegado esquecer de fazer a última curva, deixar-se ir em frente, galgar  o separador e deixar-se entrar no precipício, é tão, mas tão forte!!

Olhar-se voando sobre o seu próprio corpo, inerte, caído ao volante do carro, enquanto este se aproxima do fundo do precipício, num ápice de segundos, mas que para ele são horas, ver-se enquanto o seu corpo se desfaz... se liberta de tudo... lágrimas escorrendo-lhe no rosto num misto de dor, libertação, compaixão, felicidade...

Apetece-lhe tanto, mas tanto...

Segredou-me Ele que assim deixaria de se sentir usado, esgotado, sugado, deixaria de sentir os parasitas que o rodeiam, que lhe levam a alma, o Ser, a vontade de viver porque se sente extorquido, espoliado, apenas usado e nunca notado... as angústias, os medos, as incertezas...

Segredei-lhe Eu que deixaria de sentir tudo isso mas também os sorrisos dos que verdadeiramente o amam e não daqueles que apenas usam a palavra amor por conveniência, os abraços de quem nada lhe pede em troca, a dádiva da vida, a esperança de que todos os que o magoam o ignorem, as descobertas, as surpresas boas (que ainda existem) e tantas coisas mais...

Gritou-me Ele:

"Não me abandones nunca... ajuda-me a viver!!"

Mas nenhum abraço é mais forte que a vontade...

Tenderness - Sterling Brown

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