2009/02/19

Esta dor que não compreendem!




Não o conhecia, na verdadeira acepção da palavra, apenas o via ali, naquele banco, e lhe sorria!
Trocamos poucas palavras!
Um bom-dia, boa-tarde e pouco mais.
Lembro-me de uma espécie de diálogo que tivemos. Digo espécie de diálogo porque esteve mais perto de ser um monólogo, uma vez que quase só ele é que falou.
Tudo começou um dia, não me lembro quando, eu via-o ali sentado, naquele banco, sempre só!
Olhava quem passava de rosto cansado, olhar ansioso como que a procurar algo ou alguém!
Um dia, num impulso, resolvi atravessar a rua e sorrir-lhe! O sorriso com que retribui o meu “saiu-lhe” mais do olhar do que do leve esgar dos lábios!
Os dias foram passando e fomos sorrindo um para o outro, de vez em quando arriscava um bom-dia, boa-tarde a que ele respondia baixinho.
Dei por mim a estacionar o carro sempre daquele lado da rua só para o poder cumprimentar.
Um dia que eu lá não passasse, por não ir almoçar a casa, por estar a trabalhar noutro local ou outra qualquer razão, ele na próxima “passagem” apenas me dizia – “ontem não veio” e sorria, sorriso ao qual eu retribuía dizendo – “não deu”!
Nunca tive tempo para muito mais que um sorriso! Passo o tempo todo a “correr de um lado para o outro” e ele apenas ali estava por volta da hora de almoço!
Naquele dia, o da “espécie de diálogo”, sentei-me junto dele, naquele banco, não fui almoçar porque senti, de algum modo, que deveria ouvi-lo!
- Sabe menina eu estou sempre aqui à espera do seu sorriso. Eu vivo muito sozinho e o seu sorriso é a minha companhia! Murmurou ele.
- Então porquê? Não tem família?
- Tenho… Mas estão sempre tão ocupados! Eu gosto muito deles, mas há muito tempo que eles não fazem por mim o que a menina fez!
- Então que fiz eu? Perguntei “meio a sorrir”.
- Atravessou a rua só para me cumprimentar.
Não respondi, não soube o que lhe dizer. Ficamos sentados ali os dois, ele foi dizendo que agora já só esperava a morte e que até agradecia que ela viesse rápido e eu, bem eu fiquei calada, apenas sorria, nunca sei o que dizer nestas situações e então tudo o que faço é sorrir. Não um sorriso por sorrir mas algo que me “sai cá de dentro”.
Há dias que não o via, uns porque não tenho estado, outros porque ele não estava, por isso perguntei a uma colega, daquelas que sabe sempre tudo, quem é quem, onde vai o que faz e ela deu-me a resposta que eu “cá dentro” já sabia!
Ele morreu! Morreu, neste sábado, durante o sono!
Chorei! Chorei de dor por um estranho! Um estranho que fez parte do meu mundo durante um curto espaço de tempo. Chorei de alegria por saber que o seu desejo se tinha cumprido!
Eu sei que sou capaz de gostar e de me “ligar” às pessoas mesmo não as “conhecendo”!
É esta dor que ninguém compreende, apenas eu!